A vanguarda portuguesa No campo dos transplantes
Portugal tem contribuído com inovações importantes. A equipa do
Hospital da Universidade de Coimbra, chefiada pelo
cirurgião Linhares Furtado, foi a primeira do
mundo a utilizar a técnica sequencial.
Graças a este tipo de operação, tornou-se possível
transplantar três doentes a partir de um fígado. A
paramiloidose, mais conhecida como «doença dos
pezinhos», caracterizada pela produção deficiente
de uma substância no fígado, obriga os doentes a
serem transplantados. Mas o seu órgão pode voltar
a ser aproveitado.
«Dá-se um fígado de cadáver a um doente com
paramiloidose e o órgão deste é aproveitado. Uma
vez noutro corpo, o fígado pode demorar 30 anos a
produzir a doença», explica Linhares Furtado, o
primeiro médico português a fazer transplantação a
partir de dadores vivos.
Nestes casos, utiliza-se ainda a técnica da
bipartição, que permite fazer dois transplantes a
partir de um único órgão. «Como o fígado é
regenerável, pode-se tirar uma pequena parte para
uma criança e dar o resto ao adulto. Com a
bipartição e o transplante sequencial, podemos
tratar três pessoas a partir de um só órgão. Uma
das vantagens deste processo é aproveitar-se o
fígado de um vivo, que é melhor do que o de
cadáver, aumentando a sobrevida de quem o recebe»,
assegura o cirurgião.
Embora eticamente haja algum debate sobre o que se
pode fazer com o que é retirado do corpo humano
num hospital, até porque só são possíveis doações
de órgãos a familiares, Linhares Furtado garante
que foram ouvidos vários juristas que defendem a
legalidade de todo o processo. Se esta técnica não
fosse utilizada, o destino do órgão retirado do
paciente com paramiloidose seria o balde do lixo.
Com modéstia, Linhares Furtado considera que
«tecnicamente, o transplante sequencial não é
transcendente», mas o processo cirúrgico
desenvolvido em Portugal despertou já o interesse
de médicos estrangeiros. O primeiro transplante
sequencial foi feito há cerca de seis anos e o
doente leva hoje uma vida normal.
Dadores de vida
Dão o corpo pela alma de outrem. Porque amam. Porque preferem
arriscar a vida a vivê-la sem aqueles que mais querem. Sónia e
Patrícia sujeitaram-se ao bisturi para darem um rim aos irmãos.
António prescindiu de parte do seu fígado pelo filho. Outros
portugueses poderiam fazer o mesmo, mas a maioria nem sabe que isso
é possível
Mais do que uma condição de nascença, foi a vida que tornou Sandra e
Sónia gémeas. Começaram por partilhar o espaço na barriga da mãe,
participaram juntas nos Jogos Olímpicos de Seul, em 1988, e até
casaram no mesmo dia. Mas nunca pensaram que o corpo de uma poderia
vir a estar dentro da outra.
Tudo parecia correr bem às irmãs Moura, como ficaram conhecidas nos
tempos em que eram campeãs de ginástica desportiva, até ao dia em
que Sandra se lesionou no joelho numa competição. A contusão levou-a
à sala de operações e a partir daí nada seria como dantes. As
múltiplas análises exigidas numa intervenção cirúrgica revelaram uma
malformação grave nos rins, que absorviam o que deviam expelir.
Nestes casos, a hemodiálise é certa. Só mais tarde vem o
transplante. Mas o corpo de Sandra teimou em não colaborar: «Comigo
a hemodiálise não funcionava. Estava sempre a piorar e o médico
disse-me que a única solução era um transplante. Como tinha uma irmã
gémea devia perguntar-lhe se me dava um rim. Foi a maior surpresa da
minha vida», conta Sandra, agora com 29 anos.
Mais do que surpresa, a conversa com o médico trouxe-lhe angústia.
Como é que se diz a uma irmã que precisamos do rim dela para
sobreviver sem a fazer sentir-se obrigada? «Passou um mês e eu não
conseguia falar com ela. Tinha medo do que lhe podia acontecer e
também da resposta», recorda, sem esconder a emoção.
Por muito que fosse o receio de enfrentar uma cirurgia, as emoções
falaram mais alto. «Agarrámo-nos uma à outra a chorar e a minha irmã
só me disse: alguma vez duvidaste?» Sónia tinha na altura um bebé
com um ano, mas não hesitou: «Nem pensei. A nossa ligação é tão
forte que dizer que sim foi a única coisa que me ocorreu.»
É verdade que são irmãs. Até são gémeas. Mas nem por isso o acto de
doar um órgão é menos altruísta. As obrigações profissionais de
Sónia, que hoje trabalha como professora de ginástica, têm
dificultado a recuperação. «Nunca pensei que fosse tão difícil, mas
também não me arrependo. De certeza que já tenho um lugar no céu por
esta acção», afiança, com um sorriso.
Aos anseios da irmã, Sandra responde com humor e gratidão: «Se ela
precisar de outro rim, eu devolvo-lhe o que ela me deu. É o rim dela
que me põe de pé todos os dias», diz, num tom divertido, mas
sincero.
No fim da tabela
Embora nunca se possam descurar os riscos de uma cirurgia, a doação
do rim é, na esmagadora maioria dos casos, um acto sem consequências
para a saúde de quem dá: «Podemos viver perfeitamente apenas com um
rim e o órgão de um vivo é melhor para o receptor porque dura mais
cinco a dez anos do que o de um cadáver. O problema é a falta de
pessoas para dar», afirma Domingos Machado, presidente da Sociedade
Portuguesa de Transplantação, que acredita que não faltariam dadores
se houvesse informação. «A transplantação com dador vivo pode ser a
única hipótese de salvar uma vida, mas os familiares não sabem. O
Estado não fez nenhuma acção de sensibilização da opinião pública.
Portugal é dos países da União Europeia com melhor taxa de
transplantes de órgãos de cadáveres, mas está no fim da tabela
quanto s dadores vivos (ver infografia). Piores só a Bélgica e a
Espanha. Dos cerca de 1 200 transplantes efectuados no ano de 2000,
apenas 30 foram de dadores vivos.
A doação de órgãos em vida pode ser um assunto delicado para os
próprios médicos. «A medicina não é tão exacta quanto algumas
pessoas julgam. Estamos a lidar com famílias muito vulneráveis. Até
há pouco tempo, alguns especialistas discordavam que se afectasse
uma pessoa saudável por causa de uma que está doente. Hoje, é
consensual a ideia de que deve prevalecer a autonomia. Se querem
dar, devemos deixar. Por isso, pretendemos sensibilizar as equipas
médicas para as doações de vivos e aumentar lentamente o número de
dadores», preconiza Mário Caetano Pereira, responsável pela
Organização Portuguesa de Transplantes, entidade directamente
dependente do Ministério da Saúde.
Pedro, o «veterano»
No Hospital Santa Cruz, em Lisboa, estão já programados vários
transplantes com dadores vivos para 2002. Pedro Silva, 37 anos, foi
o primeiro a receber o órgão de um familiar este ano. A doença
transformou-o num veterano em intervenções cirúrgicas deste tipo,
mas nunca sentiu tanto medo como desta vez. Não era apenas a sua
vida que se jogava no bloco operatório. Ao lado, a sua irmã de 26
anos submetia-se à operação que permitiria aos médicos retirar-lhe o
rim que fazia falta a Pedro.
«Antes de ser anestesiado, pedi para me levarem para ao pé dela
porque estava muito nervoso», confessa Pedro, insuficiente renal
desde os 22 anos. É certo que o facto de já saber o que o esperava
contribuía para aumentar a tensão, mas o que mais o preocupava era a
irmã: «O meu sobrinho tem 6 anos, por isso tinha muito receio que
alguma coisa pudesse correr mal.»
O primeiro transplante que lhe proporcionaram, com um rim de
cadáver, foi o fiador de vida deste relações públicas durante 12
anos, mas Pedro parecia de novo condenado ao inferno da hemodiálise:
«Diagnosticaram-me uma rejeição crónica. Foi desesperante porque a
qualquer momento tinha de voltar à máquina, que é muito traumática
para mim. Sabia que se podia transplantar de vivos, mas não me
sentia no direito de pedir isso a alguém.»
Cansada de ver o irmão sofrer, Patrícia começou, em segredo, a fazer
análises para verificar se poderia dar o seu rim. «Já não aguentava
ver a angústia em que ele vivia. Sabia que ele nunca me pediria o
rim, por isso decidi avançar sozinha», recorda.
A família foi assaltada pela dúvida: «Toda a gente me lembrava que
eu era mãe solteira e tinha um filho para criar. Só que sempre fui
muito ligada ao meu irmão. Tinha de o ajudar», conta esta
secretária. Alheio aos considerandos dos adultos, o filho tomou
partido: «Grande pinta teres dois rins e poderes dar um ao tio para
ele se curar», alvitrou do alto dos seus 6 anos.
Assim que o efeito da anestesia lhes libertou a mente, Pedro e
Patrícia quiseram saber um do outro. Ouvir que estava tudo bem era a
única recompensa esperada. «Só nos vimos dois dias depois da
operação. Foi cómico e emocionante ... estávamos todos entubados.
Queríamos abraçar-nos e não conseguíamos», contam os irmãos.
Uma semana depois da operação, Patrícia ainda se agarra à barriga
para aliviar as dores. Nem por isso considera que fez algo de
extraordinário: «Não é um acto de coragem. É uma situação que se
vive.»
Pedro não consegue exprimir a sua gratidão por palavras. Sem o
saber, acaba por fazer o maior agradecimento de todos: «Se fosse
preciso, faria o mesmo por ela.»
A longa espera
A transplantação de rim com dadores vivos é já uma prática frequente
a nível nacional. Mas os transplantes de fígado só se tornaram
possíveis em 2001. No ano passado, duas mães e um pai puderam, pela
primeira vez em Portugal, salvar os filhos abdicando duma parte do
seu fígado. O André, de 5 anos, é uma das três crianças já curadas
graças às novas intervenções cirúrgicas.
Ansioso por garantir a saúde do menino, António Diniz tinha há muito
sugerido que tirassem ao seu corpo o que faltava ao do filho. Mas
foi preciso esperar: «Se não fosse transplantado o meu filho morria.
Tinha uma insuficiência de Alfa 1, uma enzima essencial que o fígado
dele não produzia. Eu ofereci-me logo para dar o meu fígado, mas os
médicos disseram-me que não se fazia cá essa operação», recorda
António.
Apesar de a ciência não ter colaborado de imediato com a sua
aspiração de pai, este construtor civil insistiu. Em 2001 conseguiu
o que queria. «No Hospital de Coimbra e disseram que já estavam a
fazer transplantes com dadores vivos. A partir daí, passei a ter o
telemóvel ligado 24 horas por dia, à espera que me chamassem.»
Depois de examinada até à exaustão a compatibilidade entre os órgãos
dos dois familiares, António e André foram chamados: «Quando
telefonaram, foi uma grande emoção. Senti-me como se estivesse a dar
vida ao meu filho pela segunda vez», conta o primeiro pai português
que pôde doar parte do seu fígado a um descendente.
Na sala de operações do Hospital da Universidade de Coimbra, o único
onde se faz este tipo de transplantes, uma equipa de cerca de 20
pessoas trabalhou durante 12 horas para arrancar ao pai os 20% do
fígado que eram necessários para replantar no filho. Milímetro, a
milímetro, desafiando, com a ajuda de um microscópio, a portentosa
máquina do corpo humano, foram cortando e fechando os inúmeros
canais do fígado. Um a um.
Passados dois dias, as dores já tinham passado e daqui a meio ano, o
fígado do dador deverá ter voltado ao seu tamanho normal, já que
este é um órgão que tem a capacidade de se regenerar. Quanto ao
André só não gosta muito de olhar para a cicatriz. Mas o pai também
tem uma.
Vantagens dos transplantes de vivos
Uma das vantagens dos transplantes com dadores
vivos é a forma programada como decorrem as
operações. Verificado o bom estado de saúde do
dador e comprovada a compatibilidade com o
receptor, é só marcar a data. Como se sabe qual
vai ser o dia da cirurgia, o doente é medicado
antecipadamente para que a rejeição seja menor.
Além disso, nos transplantes de vivos, a recolha e
a recepção são simultâneas, o que significa que o
órgão permanece apenas alguns minutos fora de um
corpo.
Os transplantes feitos a partir de cadáver
caracterizam-se pela ansiedade e pressão vivida
pelos doentes que estão em lista de espera, sempre
na esperança de uma chamada de vida.
A Lusotransplante, uma entidade pública a
funcionar 24 horas por dia, 365 dias por ano, é a
entidade pública que gere a oferta e a procura de
órgãos. Nos seus três centros de
histocompatibilidade (Lisboa, Porto e Coimbra)
fazem-se todos os estudos imunológicos necessários
para decidir qual é o melhor par de
dador/receptor.
Quando recebe a informação de que há um órgão de
cadáver disponível, a Lusotransplante consulta a
base de dados da lista dos candidatos. O doente é
chamado e, no caso do rim e do coração, a operação
tem de ser feita em 24 horas. O fígado pode
esperar 48 horas. Até lá, os órgãos conservam-se
em gelo.
De todo este complexo processo, a fase da recolha
é a que merece mais críticas por parte dos
médicos. Não tanto por não ser feita
correctamente, mas porque, muitas vezes não é
feita. Ainda há muitos hospitais insensíveis à
necessidade de aproveitar o maior número de órgãos
possível. Uma vez que todos somos potenciais
dadores e que apenas 37 mil portugueses estão
inscritos no Registo Nacional de Não Dadores, este
desperdício e a falta de divulgação para a
possibilidade de doação em vida são os principais
obstáculos a uma redução dos doentes em listas de
espera.
Quem dá e quem recebe
Não basta ser altruísta para doar um órgão em
vida. Só os familiares até ao primeiro grau (pais,
irmãos, sobrinhos e tios) é que podem oferecer-se
para salvar uma vida. Para evitar abusos,
sobretudo o tão temido tráfico de órgãos, os
legisladores decidiram apertar a malha. Há quem
considere que apertaram demasiado.
De acordo com a lei portuguesa, nem sequer os
cônjuges podem doar uns aos outros, o que já tem
levado o desespero a algumas famílias. As regras
foram feitas a pensar na máxima protecção do dador
vivo, mas brevemente poderá haver uma revisão da
legislação que preveja a doação entre marido e
mulher.
O número de pessoas a necessitarem de órgãos
aumenta de ano para ano. No caso do rim, as
deficiências congénitas e as insuficiências renais
estão na origem da maioria das operações. Doenças
crónicas como a diabetes têm contribuído para
engrossar todos os anos as listas de
hemodialisados, que são potenciais candidatos a
transplantação.
As hepatites que degeneram em cirroses, os tumores
e as malformações são os principais responsáveis
pelos transplantes de fígado. Em Portugal, a
«doença do pezinho» aumenta o número de receptores
deste órgão.