
FOLHAONLINNE - 16/05/2002
Droga experimental é promissora para tratar depositos de amiloide
da Reuters, em Nova York
Uma droga que age sobre uma determinada proteína do sangue é promissora para o tratamento da doença de Alzheimer e de outros distúrbios caracterizados pelo acúmulo anormal dessas substâncias, segundo uma pesquisa inicial realizada em camundongos e humanos.
Os pesquisadores estão começando um pequeno teste da droga em um grupo de cinco a dez pacientes portadores da doença neurológica. A questão fundamental será verificar a possibilidade de a eliminação da proteína sanguínea -conhecida como SAP- reduzir as "placas" cerebrais encontradas no Alzheimer, disse Mark B. Pepys, pesquisador e coordenador da equipe da Royal Free and University College Medical School, em Londres (Reino Unido).
Em estudo preliminar, publicado na edição de hoje na revista "Nature", os pesquisadores encontraram evidências de que a droga poderia reduzir as placas ao diminuir os níveis corporais de SAP.
As placas do Alzheimer são acúmulos da proteína betaamilóide. Não está claro se esses depósitos realmente ajudam a provocar a doença, mas muitos cientistas acreditam nessa hipótese e empreendem esforços ainda maiores para identificar uma forma de evitar ou de reverter a deposição de amilóide.
No trabalho atual, a equipe de Pepys teve por alvo a SAP. A razão para isso é o fato de a proteína ser um componente importante dos depósitos de amilóide encontrados no Alzheimer e em outros distúrbios como a amiloidose -enfermidade em que as proteínas se acumulam e danificam vários órgãos e tecidos, geralmente, em associação com uma doença crônica.
A SAP (sigla em inglês para componente P amilóide sérico) é uma proteína sanguínea que se liga aos depósitos de amilóide e ajuda a torná-los resistentes à ruptura. A equipe de Pepys descobriu um composto que evita essa ligação e provoca a remoção rápida da SAP da circulação de camundongos e de humanos.
Em 19 pacientes com amiloidose, vários meses de tratamento reduziram os níveis sanguíneos de SAP. Além disso, houve evidência de que os níveis da proteína nos depósitos amilóides dessas pessoas também diminuíram.
A esperança é que a redução da SAP dos depósitos amilóides "desestabilize" esse material acumulado o suficiente para provocar sua regressão, afirmaram os pesquisadores.
No caso do Alzheimer, "a vantagem dessa abordagem" é que, se funcionar como esperado, ela não necessitará "de uma droga que atue no cérebro", disse Pepys.
Existe uma associação entre os níveis de SAP na circulação e nos tecidos, e a diminuição da taxa sanguínea dessa proteína parece provocar a liberação da SAP dos tecidos para o sangue, o que permite que ela seja eliminada pelo fígado.
Além do potencial tratamento do Alzheimer, as drogas capazes de inibir a SAP poderiam ser úteis para combater a diabete tipo 2, afirmou Pepys. Ele afirmou que os portadores dessa forma de diabete apresentam depósitos amilóides entre as células das ilhotas que produzem insulina no pâncreas -embora ainda não esteja claro se esses depósitos contribuem para a disfunção das células das ilhotas na diabete.
Em editorial sobre o estudo, Leslie Iversen, do King's College, em Londres, avaliou que essa pesquisa "é um grande passo" para comprovar a idéia de que eliminar a SAP dos amilóides pode ser uma nova forma de tratar doenças relacionadas à formação desses depósitos.