Mário Corino de Andrade Nasceu no Alentejo em 1906, trabalhou com Óscar Voght e Abel Salazar e conviveu com Pavlov Foi pioneiro a demonstrar a existência da doença dos pezinhos  | | Além de cientista e investigador, o professor Corino de Andrade foi cidadão de reconhecida intervenção cívica |
Mário Corino da Costa Andrade - um dos mais destacados neurologistas portugueses e o primeiro investigador que demonstrou a existência da doença dos pezinhos - faleceu, no Porto, vítima de uma paragem cardiovascular. Tinha 99 anos, .
Natural de Moura (Alentejo), licenciou-se em Medicina e Cirurgia em Lisboa (1929), depois de ter estagiado com os professores Egas Moniz (Prémio Nobel da Medicina) e António Flores. De 1931 a 1937, trabalhou no Laboratório de Neuropatologia da Faculdade de Medicina de Estrasburgo.
"Uma das coisas que ali aprendi com o professor Carré foi o gosto pela clínica. Ele costumava dizer é preciso saber admirar-se...", recordava Corino de Andrade, em entrevista concedida ao JN, em Outubro de 1991.
Em 1937, partiu para Berlim, para fazer um estágio nas áreas da Neurologia Clínica e da Neuropatologia, sob orientação do professor Óscar Voght
"Ele estava a dirigir o Instituto Marx Planck. Deslocou-se a Moscovo para tratar Lenine. Após a sua morte, foi o Voght que dissecou o cérebro de Lenine...", costumava recordar Corino de Andrade, que também conviveu com Pavlov.
Regressado a Portugal, radicou-se no Porto, cidade onde viveu até morrer. Em 1938, contratado como neurologista pelo Hospital de Santo António, ali criou e dirigiu o respectivo Serviço de Neurologia a partir do início da década de 1940.
Em finais de 1939, o professor Corino de Andrade observou, pela primeira vez, uma "patologia estranha".
"Verifiquei logo que aquela senhora tinha uma história clínica que não se enquadrava em nada do que se conhecia. E indagava-me o que será isto?... Tens de descobrir o que é...", recordava Corino de Andrade ao JN, revelando ter vindo a saber que não era caso único: "Havia algo de novo", dizia.
No âmbito do trabalho de investigação que desenvolveu, o professor Corino de Andrade veio a notabilizar-se mundialmente quando, em 1952, foi o primeiro investigador a identificar e a tipificar cientificamente a paramilóidose (chamada Polineuropatia Amiloidótica Familiar), vulgarmente designada "doença dos pezinhos" e conhecida por "doença de Andrade", uma condição neurológica típica das regiões piscatórias do Norte e Centro de Portugal, e que haveria de ser identificada em outras regiões litorais do Mundo (por exemplo, no Japão e na Suécia).
Intervenção cívica
Cidadão de reconhecida intervenção cívica - fazendo muitas vezes questão de recordar que vivera os tempos da primeira e da segunda grandes guerras -, Corino de Andrade escapou ao nazismo mas não à polícia política (PIDE) do Estado Novo, que lhe moveu perseguições, no início da década de 1950, pelas suas convicções democráticas .
"Os meses que passei na cadeia serviram-me para muita informação e muita reflexão. Tirei disso muito proveito", dizia ao JN em 1991.
Apoiou a candidatura de Nórton de Matos à Presidência da República. Como opositor ao Estado Novo, fez parte do núcleo de homens de ciência do Porto, entre os quais se destacaram figuras notáveis, como Abel Salazar e Ruy Luís Gomes. Por isso, ao lado do professor Nuno Grande - um dos principais impulsionadores da criação, na Universidade do Porto, do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS) -, Corino de Andrade fez parte da respectiva Comissão Instaladora, entre 1974 e 1980.
Confessava-se agnóstico e admitia que a Terra há-de tornar-se um planeta morto. Afirmava pensar que não seria no Universo mais do que uma molécula era no seu corpo.
As suas actividades, científica e cívica, mereceram-lhe distinções ao longo da vida, designadamente o Grau de Grande Oficial de Santiago de Espada (1979), a Grã-Cruz da Ordem do Mérito (1990), o Grande prémio Fundação Oriente da Ciência (1990) e o Prémio Excelência de Uma Vida e Obra da Fundação Glaxo Wellcome (2000).
A Universidade do Porto colocou bandeiras a meia haste. O JN regista que os discípulos mais próximos do professor Corino de Andrade manifestavam ontem o desejo de que o seu corpo fosse velado, em câmara ardente, no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar. No entanto, deixam a decisão final aos familiares do cientista.
in JN Sofia Pissarro
Voltar
|