a paramiloidose-Site oficial da Associação Portuguesa de Paramiloidoise
 
 
 

 

A REGIÃO DA

PÓVOA DE VARZIM

E VILA DO CONDE

 

 

Vila do Conde

 

A primeira menção é de 953: «Vila de Comité».

Em 1073 encontra-se uma referência às salinas de Vila do Conde, o que constitui um possível elo com as rotas do sal que tanta importância toma mais tarde nas relações com outros países da Europa.

Vila do Conde é dominada desde o séc. XIV pelo Convento de Santa Clara, a cujas terras pertencem, entre outras, a Póvoa de Varzim.

O foral novo foi concedido pelo Rei D. Manuel em 1516.

Juntamente com Viana do Castelo, Porto e Aveiro, Vila do Conde é, desde a Idade Média, um dos principais portos que asseguram as comunicações com o exterior. Se Caxinas- e a Póvoa de Varzim foram responsáveis pela difusão da Paramiloidose ao longo da costa, através da sua actividade pesqueira, foi provavelmente pelo porto de Vila do Conde que se deu a migração do gene para o exterior do pais.

 

Póvoa de Varzim

 

A alta prevalência da Paramiloidose nesta região (a mais elevada de Portugal) e alguns factos históricos sugerem que a mutação original possa ter ocorrido aqui, muitos séculos atrás.

 

As origens

 

O habitante - «o Poveiro» - resulta de uma mestiçagem profunda de fenícios, teutões, judeus e, principalmente, normandos:

«Tipo antropológico do pescador poveiro – Homem: olhos pardos, cabelo escuro e bigode ruivo, mestiço do tipo nórdico com braquicéfalo. Mulher: cabelo escuro, olhos azuis, pele rosada e estatura média».

Fonseca Cardoso: O Poveiro, estudo antropológico (1900).

A influência dos povos normandos no litoral português não deixa dúvidas. A cultura normanda, essencialmente marinheira, revela-se nesta região através de vários elementos antropológicos,         particularmente           as

 Embarcações e as siglas.

«Aparecem na Galiza barcos e pescadores chegados do Norte, após a fase critica das incursões vikings e normandas [...] e da pacificação das costas após os ataques sarracenos, com a reorganização do litoral e das suas actividades de pesca, a partir do séc.  XII. Um dos aspectos mais importantes é o da unidade cultural das colmeias pescadoras que usavam as lanchas primitivas».  (Octávio Filgueiras).

O uso das marcas de família constitui um dos traços dominantes  dessa unidade cultural. Ora, não só se encontra esse uso entre os pescadores dinamarqueses mas também nos dos Báltico, na zona de Dantzig. A mesma semelhança se encontra entre as siglas

piscatórias poveiras e as marcas de casas agrícolas de Fumem, na Dinamarca. A ampulheta de Fumem é desenhada de modo idêntico ao cálice da Póvoa. A comparação das siglas poveiras com os caracteres rúnicos revela analogias  imediatas. Existe até uma origem   etimológica   comum   entre  o   termo

«marca», dado pelos poveiros às suas siglas, e a palavra norueguesa antiga «mork».

 

O foral

 

Em 1308, o rei D. Dinis outorga carta de foral às 54 famílias da «Póboa Nova de Varazim», unindo a Vila Velha, essencialmente agrícola, a um núcleo piscatória situado mais a sul.

 

A pesca

 

A Póvoa de Varzim está no centro de uma zona piscatória  muito rica, cuja área de influência se estende da Galiza  à Figueira   da   Foz.  No séc XVIII é a maior praça de pesca do Norte de Portugal. Um autêntico exército de almocreves bate diariamente os caminhos, fazendo penetrar nas províncias do interior o peixe da Póvoa.

 

A construção naval

 

A partir do séc. XVII assiste-se ao florescimento da indústria de construção naval.

Carpinteiros poveiros são solicitados pelos estaleiros da Ribeira das Naus em Lisboa devido à sua capacidade técnica.

 

 A Emigração

 

Já em 1510 alguns poveiros terão participado como mareantes e pilotos na tripulação das naus portuguesas. A partir daí, em épocas de crise ou de fome o poveiro emigra: com a perda da independência de Portugal em  1580, começa a emigração para o Brasil, intensificada a partir de 1697 com a descoberta do ouro.

 

A Paramiloidose na região da Póvoa de Varzim e Vila do Conde

 

Conhecem-se na Póvoa de Varzim cerca de 88 grandes famílias afectadas e 51 em Vila do Conde. Muitas delas estão concentradas no bairro piscatório de Caxinas, onde a Paramiloidose é conhecida como «a doença dos pezinhos». Outras estão dispersas por várias freguesias, tanto costeiras como do interior.

 

A DIFUSÃO DA

PARAMILOIDOSE EM

PORTUGAL

 

A partir da região da Póvoa de Varzim e Vila do Conde, a Paramiloidose vai seguir as viagens dos pescadores ao longo da costa: estende-se para o norte até Viana do Castelo e para o sul até à zona de Buarcos e Figueira da Foz.

Começa depois a penetração para o interior seguindo ligações comerciais e agrícolas: Barcelos e Braga são focos importantes de paramiloidose. Os agregados da Serra da Estrela, particularmente o de Unhais da Serra (20 famílias atingidas), são de mais difícil explicação. Existiram nesta terra umas termas famosas para o «reumatismo». É possível que paramiloidóticos, a elas tenham recorrido e assim aí se tenha implantado a doença.

Nos finais do século XIX começa, com a era industrial, a migração para as grandes cidades: primeiro o Porto, depois Lisboa.

 

Distribuição das famílias portuguesas

 

É de notar a grande prevalência na zona Norte do país e ao longo da costa: à região da Póvoa de Varzim e Vila do Conde (139 famílias), seguem-se Barcelos (54 famílias) e Braga (39 famílias). Porto e Matosinhos têm 44 famílias conhecidas, Figueira da Foz 40.

A distribuição dos doentes por residência mostra uma maior tendência à difusão, sobretudo para o Sul.

 

Balanço actual

 

1012 doentes (dos quais cerca de 400 vivos), 479 famílias, 6000  indivíduos em risco e 3000 portadores estão registados no Centro de Estudos da Paramiloidose do Porto. E, provavelmente, os números reais são muito superiores.

 

Progressão em Portugal

 

Desde a descrição original de Corino de Andrade, em que se referem 12 famílias, o seu

numero tem vindo a crescer até à relativa estabilização nos últimos anos que corresponde a um levantamento mais completo e à fusão de algumas famílias.

Calcula-se que 1 novo portador nasce cada semana, uma nova família é identificada cada mês e 50 novos doentes surgem cada ano.

A progressão da Paramiloidose em Portugal, traduzida nestes números, torna esta doença – que atinge pessoas novas, que é sempre progressiva e que é altamente incapacitante –

um problema grave de Saúde Pública. É por isso urgente que sejam desde já tomadas medidas para a sua contenção.

 

SUÉCIA

 

Os Vikings

 

Os Vikings habitavam a Escandinávia. Extraordinários marinheiros, começavam a partir do séc. VIII a atacar as povoações da costa Mar do Norte, depois as da Península Ibérica. Sobem os rios e caem de improviso nas aldeias ribeirinhas que saqueiam e incendeiam. Os seus ataques continuam até ao séc. XI.

Os primeiros ataques normandos às costas portuguesas datam provavelmente de 961. Entre 1015 e 1022 foram por várias vezes repelidos nomeadamente na região de Braga em 1015.

O seu alfabeto era composto por 16 caracteres rúnicos. As pedras com eles gravadas são fontes importantes para a história da idade Viking:

Damião de Goês, comentando uma pedra existente no reinado de D. Manuel na ilha do Corvo nos Açores, e que atribui aos Vikings, diz:

«… esta memória poderia ser da Noruega, Gótica, Suécia ou Islândia, porque em tempos passados […] havia entre eles muitos corsários e tão poderosos que os males que faziam pelo mar Oceano e Alemanha se podiam mui dificilmente resistir, do que dá testemunho […] Joänes Magnus Gothus, arcebispo de Upsala no reino da Suécia, homem com quem naquelas partes tive estreita amizade […]

[…] costumava fazer talhar e esculpir todos os eus feitos, acontecimentos e façanhas em rochas de pedra viva, para mor lembrança». Damião de Goes, Crónica do Príncipe Dom João o Segundo De Nome (1567).

 

 

 

 

Amizade entre um Português e dois Suecos no séc. XV

 

Damião de Góis (1502 – 1574), historiador, humanista e diplomata, Olaus Magnus (1490 – 1557), padre católico sueco autor da Carta  Marina (1539) e da «História dos Povos Nórdicos» (1555), Johannes Magnus (1488 – 1544) o último Bispo católico Sueco.

Estes três homens, vindos de extremos opostos da Europa, encontram-se em Danzig em 1429 e tornam-se amigos:

«Quando fui tratar de negócios de El-Rei àquela cidade, contraí amizade indissolúvel com João Magnus Gotho  e seu irmão Olao Magnus Gotho. Encontrei-os depois em Itália vindos aí dos confins do mundo». (Damião de Góis, Deploratio Lappiae  Gentis, 1540).

Humanistas e homens do renascimento são, curiosamente, perseguidos por diferentes representantes da rigidez de pensamento que combatem: os dois irmãos suecos são expulsos do seu país pela Reforma e Damião de Góis é, no final da sua vida perseguido pela Inquisição a quem é atribuída a sua morte.

 

O comércio do peixe seco

 

Se uma mutação comum liga os casos portugueses e suecos, há algumas circunstâncias históricas a favor da hipótese da migração do gene mutante se ter dado de Portugal para a Suécia. O problema mais delicado é explicar a concentração dos doentes numa área relativamente restrita do norte da Suécia.

As principais ocupações do povo desta região eram, em tempos primitivos, a agricultura, a caça e a pesca. Para conservar os alimentos o sal é fundamental. As rotas do comércio do sal entre o continente e o Báltico estabelecem-se muito cedo. Portugal é a parte importante deste comércio.

No seu livro «A História do povo Nórdico» (Roma, 1455) Olaus Magnus assinala a importância do comércio do peixe seco no golfo de Bótnia. Uma referência especial é feita neste livro a um lugar chamado «Bjuraklubb» (=Bjuroblubb) mesmo ao sul da actual cidade de Skelleftea. No mesmo livro há uma curiosa ilustração deste porto mostrando um mercador vindo de terras longínquas comprar peixe seco. Poderia ser um português portador do gene da Paramiloidose?

 

Dantzig (actual Gdansk)

 

A velha cidade hansiática é um elo possível entre Portugal e a Suécia. No inicio do séc. XVI a cidade tinha cerca de 30000 habitantes e, em períodos de comércio intenso, mais de 400 barcos podiam estar aí aportados.

Mercadores portugueses estavam estabelecidos em Dantzig já em 1457. André Lopes Pinto de Lisboa mandou nada menos que 200 a Dantzig no inicio do séc. XVII, levando sal e trazendo centeio.

 

 

Relações entre Portugal e a Suécia após a Restauração

 

É a partir do séc. XVII que há referências históricas de relações directas entre os dois países. Em 1640 Portugal torna-se de novo independente em relação à Espanha. Para consolidar esta independência, embaixadores portugueses são enviados ás diversas cortes da Europa, entre elas a da Suécia, e surgem os primeiros embaixadores suecos na corte de Lisboa. Os laços entre os dois países são assim estreitados.

 

A doença de Skelleftea - «Skelleftea-Sjukan»

 

São actualmente conhecidos na Suécia cerca de 248 casos de Paramiloidose, dos quais 100 vivos, pertencendo a 191 famílias. Todos têm a sua origem numa área restrita cujo centro é a cidade Skelleftea, no Norte da Suécia, junto ao Báltico. Outros provêm de terras vizinhas, como Pitea, Alvsbyn Kalix e Liycksele.

Nesta região a prevalência do gene mutante é muito elevada ( 4/10000 e aqui, pela primeira vez na história da doença foram identificados casos de homozigotia ( indivíduos com dose dupla por terem recebido um gene mutante do pai e outro da mãe).

É também da região de Skelleftea a maior família conhecida com Paramiloidose, ou, pelo menos, aquela em que se conseguiu recuar mais no tempo, uma vez que remonta ao séc. XVI. Recentemente foi possível ligá-la a uma família de origem sueca descrita em Indiana, nos Estados Unidos.

 

A BACIA DO

MEDITERRÂNEO

 

As cruzadas

 

Ao tempo da fundação do reino de Portugal, no séc. XII, a Europa é um local de mudança constante, com os nobres deslocando-se de terra em terra, em busca de «honra e fortuna».

Os cruzados, oriundos de todo o Norte da Europa, têm papel preponderante na ajuda aos primeiros reis portugueses na conquista aos Mouros de Lisboa e dos territórios do sul. A pretexto da «luta contra os infiéis», as Cruzadas têm na sua génese interesses políticos e económicos e levam ao desenvolvimento das rotas do Mediterrâneo.

Até aos nossos dias, as peregrinações feitas à Terra Santa têm refeito caminhos das Cruzadas, tocando as várias ilhas mediterrânicas.

 

O Comércio

 

A partir dos finais do séc. XII, cresce o comércio português, tanto terrestre como marítimo. Pela sua posição geográfica, Portugal é escala das grandes rotas marítimas, quer do Norte, centradas nas cidades da liga Hanseática, quer do Sul, da Bacia Mediterrânica. Lisboa é uma encruzilhada:

«Havia em Lisboa estantes de muitas terras […] como genoveses, lombardos e catalães, de Aragão, de Maiorca e de Milão […] e assim de outras nações a que os reis haviam dado privilégios e liberdades […]. E portanto vinham de desvairadas partes muitos navios de modo que, com os que vinham de fora e os que no Reino havia, estavam muitas vezes ante a cidade 400 e 500 navios de carregação» (Fernão Lopes, Crónica de D. Fernando).

 

 

MAIORCA

 

No centro do Mediterrâneo ocidental, Maiorca participa desde sempre no seu comércio e nas suas relações com Portugal. Existem no entanto laços especiais:

 

O Infante D. Pedro de Portugal, Senhor do Reino de Maiorca

 

Irmão do terceiro rei de Portugal, D. Afonso II, é feito Senhor do Reino de Maiorca e Minorca em 1231 pelo seu sobrinho D. Jaime I da Catalunha. Recebe então 5% das terras da ilha, correspondentes a 6100 hectares, num total de 103 prédios rústicos. Destes o Infante D. Pedro distribui 52 pelos seus companheiros, portugueses e castelhanos. Morre em Maiorca em 1256, sendo sepultado, conforme o seu desejo, na catedral.

 

Os cartógrafos

 

Os cartógrafos maiorquinos são afamados no séc. XV. O Infante D. Henrique chama a Portugal, entre outros, Mestre Jacome como «Fazedor de cartar de marcar».

 

Paramiloidose em Maiorca

 

Foram até agora identificadas em Maiorca 25 famílias com Paramiloidose, compreendendo mais de 50 doentes. Curiosamente, a sua distribuição na ilha corresponde de um modo geral ás terras doadas ao Infante D. Pedro de Portugal no séc. XIII.

 

ITÁLIA

 

São actualmente conhecidas em Itália 5 famílias com Paramiloidose, nas quais foi já confirmada a existência de TTR Met 30. Três delas situam-se curiosamente, junto à costa adriática (Martinsicuro, Isernia e Ostuni), duas outras no norte interior (Busto Arsizio e Bolonha). Existem mais de três famílias de tipo I, cuja mutação não foi ainda estudada.

Na Sicília foram identificadas 2 famílias com outras variantes de TTR.

 

GRÉCIA

 

São conhecidas 5 famílias afectadas, 4 em Creta e 1 no Peloponeso.   Sabe-se  no entanto,

através de famílias de origem grega emigradas para os Estados Unidos, que em Esparta e em aldeias da costa Sul existiram muitos outros casos. A Paramiloidose, a que o povo chama «A Maldição», seria aí conhecida à mais de 500 anos.

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