De Vila do Conde saíram as melhores naus e caravelas da carreira da Índia
Vila do Conde participou, de começo, na epopeia da nossa expansão, pois «nos seus estaleiros construíam-se pinaças, berinéis, naus, caravelas, galeões em larga escala, e tal foi o incremento desta indústria que, da Ribeira das Naus, saíram vários barcos para a expedição de Ceuta e ainda as melhores naus e caravelas da Índia»[1]
Capela de Nossa Senhora do Socorro edificada por GASPAR MANUEL, piloto-mor da carreira da Índia, China e Japão
Por outro lado sempre esta vila foi um alfobre de marinheiros e calafates. Lembro o marítimo Rosado que «passando-se a França comandou o terceiro navio francês à Índia e o célebre piloto autor da carta do Conde Raimundo de la Torre, sobre a navegação de S. Tomé.
«Das suas passadas glórias marítimas falam também os seus belos monumentos.
Em 1542 os mareantes da vila construíram a expensas suas a formosa capela do Corpo Santo na igreja matriz; e em 1603, Gaspar Manuel, piloto-mor da carreira da Índia, China e Japão, edificou a capela da Senhora do Socorro, recordação evidente dos pagodes indianos.»[2]
Posto isto, só nos resta concluir que de Vila do Conde se partia para a Índia (Goa), China (Macau) e Japão e que muitos dos marinheiros e mercadores que atrás referi, terão embarcado em Vila do Conde, por serem naturais dessa região – Vila do Conde/Póvoa de Varzim. E desta maneira a Paramiloidose terá viajado para o País do Sol nascente. E para completar esta ideia, acrescento apenas uma pequena nota: « o papel do fidalgo comerciante português, ou antes, do capitão-mor da viagem ao Japão, e dos seus homens, nas relações entre os dois países tem sido muito menos estudado do que o papel do missionário, pela simples razão de que aqueles, de espírito mais prático, pouco deixaram escrito, ao contrário dos missionários que deixaram uma volumosa correspondência, relatórios e outras obras que constituem a fundamental fonte sobre acontecimentos da época».[3] Contudo, julgo ser possível, um dia, após aturada pesquisa, encontrar os laços familiares que ligam esses marinheiros e comerciantes aos paramiloidóticos japoneses – tipo I.
O diálogo que a história tarda em iniciar com a Paramiloidose
A Paramiloidose – um documento histórico
Por fim só me resta acrescentar o seguinte: a existência de focos de Paramiloidose espalhados por todo o mundo, alguns de constituição recente, outros de formação que data de há séculos, curiosamente em locais por onde os portugueses passaram ou se fixaram, fazem desta doença hereditária um documento biológico que tarda em interessar à História.
A História, como escreve Lucien Febvre, faz-se com documentos escritos sem dúvida. Quando os há. Mas pode fazer-se, deve fazer-se com tudo o que o engenho do historiador lhe pode permitir.
Acontece que a Biologia (Genética molecular, Bioquímica, etc.) e a Antropologia oferecem à História resultados das suas pesquisas sobre essa fonte extraordinariamente rica e até agora negligenciada pelos historiadores que é o corpo humano.
Seria útil e louvável que os historiadores portugueses pudessem iniciar, quanto antes, o diálogo com a Paramiloidose.
Representaria mais um passo, julgo eu, em direcção «da nova História», alargando horizontes, identificando as populações e os seus movimentos, os mareantes e os mercadores desconhecidos, as suas naturalidades, a contribuição das suas terras para o engrandecimento de Portugal e da Europa, sobretudo na altura em que estamos a comemorar o V Centenário do período mais brilhante e fecundo da nossa vida colectiva – Os Descobrimentos.
António Rodrigues Morais, (In Jornal da APPP, Nº. 19, de Agosto de 1991).
[1] NETTO, Maria Teresa de M. Lino, A Linguagem dos Pescadores e Lavradores do Concelho de Vila do Conde, Separata da Revista Portuguesa de Filologia, Vols. I e II., Coimbra, Casa do Csatelo, 1949, pg. 17.
[2] SAMPAIO, Alberto, 3 Estudos históricos e económicos II Volume, “As Povoas Marítimas”, Lisboa, Editorial Veja, pgs. 135/136.