a paramiloidose-Site oficial da Associação Portuguesa de Paramiloidoise
 
 
 
COMO TERÁ CHEGADO A PARAMILOIDOSE AO JAPÃO?
TERÁ EMBARCADO EM VILA DO CONDE?
 
            Tal como anunciei no final do tema, «A paramiloidose e a sua propagação ao longo dos séculos, abordado nos números 7, 8, 9 e 10, de Setembro de 1983, do nosso Jornal, de novo me encontro em contacto com os nossos leitores, a fim de cumprir uma promessa antiga, que é a publicação do presente artigo.
            Consta de umas linhas singelas, escritas por uma pessoa que, desde a primeira hora, se «apaixonou» por estes assuntos, mas que reconhece, com humildade, as suas limitações nesta área, não tendo, porém, outras pretensões que não sejam as de dar conteúdo ao jornal com motivos históricos sobre a difusão da doença e atrair outros colaboradores interessados em debater e aprofundar esta matéria.
            Ainda está por fazer uma obra válida e científica sobre esta temática que, quanto a mim, competiria aos historiadores, pois que a história da Paramiloidose se insere na História de Portugal, presente e passada, especialmente no tempo da nossa expansão ultramarina – época das Descobertas.
 
 
 
         Do litoral português à ilha de Tanegashima (Japão)
 
         A Paramiloidose terá chegado ao Japão com os portugueses durante a segunda metade do séc. XVI e a primeira do séc. XVII.
            A partir do século XV, os navegadores portugueses alcançaram quase todos os cantos do Globo, iniciando uma nova rede de comunicações, uma nova geografia e uma nova ordem económica mundial. (Dir-se-ia que foi a primeira globalização).
            Com o descobrimento do caminho marítimo para a Índia estabeleceram um vasto tecido comercial que compreendia os países costeiros e as ilhas asiáticas entre o Mar Vermelho e o Japão.
            «A chegada dos portugueses ao Japão não foi planeada nem cientificamente conduzida, mas deu-se por acaso, num junco levado por uma tempestade»[1], que “deu à praia da ilha de Tanegashima” em 23 de Setembro de 1543, segundo o testemunho da Crónica da Espingarda, Teppo-ki[2]. Ainda sobre “o nome dos portugueses que primeiro abordaram a Tanegashima é também assunto de discussões e divergências. António Galvão, no seu Tratado, e Diogo Couto, nas Décadas, indicam o nome de António da Mota, que com dois companheiros deu à praia de Tanegashima, num junco, em consequência duma tempestade”.[3]
 

[1] JANEIRA, Armando Martins, o impacte português sobre a civilização japonesa, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1970, pg. 25.
[2] IDEM, ibidem, pg. 29.

[3] IDEM, ibidem, pgs.28/29. 

http://www.paramiloidose.com/imagens/tenagashima.jpg 

«Isto não faz desmerecer da capacidade dos pilotos e marinheiros portugueses, que então, é por todos reconhecido, eram os melhores do mundo».[1]
            «A primeira notícia da existência do Japão recebida na Europa trouxe-a Marco Pólo. Chamava-lhe Cipangu»[2], mas, «o primeiro que na Europa usou a palavra Japão, jampon, foi Tomé Pires, na Suma Oriental»[3].

                «Mais que pela vaga indicação de Marco Pólo, os portugueses tiveram conhecimento real da existência do Japão por referências colhidas nos portos da Índia e da China, dos navegadores árabes e entre os vários marinheiros e comerciantes asiáticos»[4]. «O que mais importa salientar é que os portugueses havia alguns anos procuravam as ilhas do Japão»[5].



[1] IDEM, ibidem, pg.25.
[2] IDEM, ibidem, pg. 26.
[3] IDEM, ibidem, idem.
[4] IDEM, ibidem, idem.

[5] IDEM, ibidem, pg.29.

Cristianizar e comerciar
 
            A tentativa de cristianizar o Japão começa com a chegada de Francisco Xavier em 1549, a Kagoshima.
            Missionários e mercadores jamais deixaram de se dirigir ao Japão a fim de dilatar a fé e estabelecer relações comerciais com as suas gentes. De início recebem bem os portugueses e aceitam a nova religião cristã, convertendo-se dáimios e xóguns, classes dirigentes da sociedade japonesa, seguidos pelo povo em geral, ao mesmo tempo que floresce o comércio entre Macau e o Japão.  Como resultado deste intercâmbio comercial, muitos portugueses estabelecem-se nas terras nipónicas, de tal forma «que em 1562, em Hirado, havia noventa»[1], o que mostra a importância que o comércio tinha atingido. Por outro lado «muitos comerciantes portugueses em Hirado, e mais tarde em Nagasaki, estavam casados com japonesas» e “muitos mercadores nacionais estavam casados com filhas de japonesas abastados. Há notícia de um português, que se estabeleceu em Nagasaki em 1570, ter montado ali uma fábrica de vidro.”[2]
            «O comércio com o Japão tinha como base Macau, cidade fundada em 1557 provavelmente por um capitão-mor da viagem do Japão, Francisco Martins.
            Os barcos do comércio entre Macau e o Japão eram então os maiores barcos do mundo, atingindo 2 000 toneladas. Nos primeiros anos aportavam a Hirado, Yokoseura e Kochinotsu, passando a fundear em Nagasaki depois da fundação desta cidade em 1571. Nagasaki, que antes era um pequeno lugarejo de pescadores, tornou-se, graças às esplêndidas condições naturais da baía, o maior porto do Japão e uma cidade onde a influência portuguesa dominava».[3]
            Os sucessos religiosos obtidos por obra dos jesuítas andam associados, em grande parte, ao propósito comercial da aristocracia nipónica em atrair aos seus domínios os barcos portugueses. Apesar de tudo, as dinastias japonesas acabam por se aperceber de que o cristianismo enfraquece e divide a autoridade do Estado e põe em causa a estabilidade política e social do país do budismo e do xintoísmo, e sobretudo, das divindades patrióticas que os jesuítas condenavam, divindades essas que fazem parte dos valores tradicionais nativos. Assim a catequização cristã acaba por ser proibida e os jesuítas expulsos, mas revelando um espantoso espírito pragmático, os japoneses permitem que se mantenham as relações comerciais, por interessarem a ambas as partes. Os reis portugueses não conseguem separar a fé do comércio e insistem nas pregações e na infiltração clandestina dos missionários. Estes procedimentos contribuem para que se instale no Japão a ideia de que os portugueses pretendem, a coberto da religião, conquistar o País à semelhança do que fizeram os espanhóis com as Filipinas. Para a formação dessa ideia muito contribuíram as intrigas de holandeses e ingleses, que estavam em guerra com a Espanha (Portugal encontrava-se sob o domínio dos Filipes), e que pretendiam substituir-nos no comércio com os japoneses. Por culpas nossas, que se compreendem para o espírito da época, os holandeses tomaram o lugar dos portugueses nas relações comerciais e influência cultural, acabando os nossos missionários por serem perseguidos e martirizados, e em 1639 o Japão acaba finalmente por cortar as relações comerciais com Portugal e expulsa os portugueses do País. Movem perseguições ferozes contra os cristãos no Japão, refugiando-se e escondendo-se estes nas diversas regiões do centro e norte.[4]
           
            Com a dissipação das comunidades cristãs, espalhou-se provavelmente a paramiloidose, originando o surgimento de diversos focos pelo território, conforme se pode observar pelo mapa, nas seguintes prefeituras: Nagano, Kumamoto, Toltori, Ishikawa, Hyogo e Kouchi.[5]
 
 
 
A influência portuguesa na civilização japonesa
           
            A influência portuguesa incidiu mais sobre os intelectuais japoneses nas relações pessoais com os missionários, mareantes e navegadores, por meio das várias áreas das Ciências e das Artes.
            Muitas palavras portuguesas foram introduzidas no vocabulário japonês, sendo que algumas ainda são usadas em quase todo o país, outras em determinadas regiões e outras caíram em desuso. São termos religiosos, nomes geográficos, vocábulos relacionados com a navegação, com a alimentação, com a indumentária e o vestuário e palavras diversas[6]:
 
              Palavra portuguesa                          Palavra japonesa
                        Hábito                                                Abito   
                        Anjo                                                    Anjo   
                    Banco                                                 Banko      
                        Bênção                                               Bensan 
                        Itália                                                   Itariya  
                        Nónio                                                Nogisu   
                        Bolo                                                   Boro     
                        Maçã                                                  Masan  
                      Manteiga                                            Manteika  
                     Pão                                                      Pan       

 

            Por outro lado, também importámos algumas palavras japonesas para a língua portuguesa:
 
 Palavra japonesa                              Palavra portuguesa
                        Banzai                                                Banzé
                        Byôbu                                                Biombo
                        Tchá                                                 Chã    
                        Iene                                                  Yen   
                        Judo                                                  Judo  
                        Sakana ou sakanaya                             sacana


[1] IDEM, ibidem pg. 159.
[2] IDEM, ibidem, idem.
[3] IDEM, ibidem pg. 192.
[4] IDEM, ibidem pg.82/83.
[5] Coordenação: COUTINHO, Paula, et al.,( APP),  As Viagens de um gene, Rocha/Artes gráficas, Lda., 1989.
[6] JANEIRA, Armando Martins, ibidem, pgs. 209, 327, 331.

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