SERIA DE FACTO UM “ALVES”
QUE TROUXE A DOENÇA DO BRASIL?
Relativamente ao penúltimo “Jornal da APP”, de Julho/88, li com muito apreço o texto com o título «Comece a fazer a sua árvore familiar”. E a razão reside no facto de há cerca de 15 anos ter construído também a árvore da minha falecida mulher.
Tudo começou a pedido do Prof. Doutor Corino de Andrade. Perguntou-me, um dia, se não seria capaz de saber se havia algum ascendente na família, proveniente da Póvoa de Varzim. Foi um desafio que me levou anos a decidir enfrentar.
Mas certo dia enchi-me de brios e fui no encalço desse(a) desconhecido(a) pela escuridão do tempo.
Na família mais chegada nunca se ouvira falar de algum parente que fosse natural da Póvoa de Varzim ou de alguém daí que tivesse casado com familiares da freguesia da Lage – Vila Verde (Braga).
Sabia-se, desde há muito tempo, que a paramiloidose vinha do ramo dos “Ferreiras”, da casa do “Alferes”, do lugar de Bouçós, da referida freguesia, mas a sua origem geográfica, se alguma vez se soube, apagou-se da memória das pessoas através de muitas gerações.
Tinha consciência de que o trabalho iria ser difícil e exigir muita pesquisa, mas, no fundo, esse tipo de tarefas que iria desenvolver, viria a constituir para mim algo de estimulante.
E assim acabei por meter mãos à obra:
1. obtive a máxima informação de pessoas da família, principalmente da saudosa D. Jaquelina Ferreira (mãe da D. Isabel Ferreira Carmo, do Núcleo da APP de Braga), prima em 1º. grau da minha sogra – Mavíldia Ferreira. Tratava-se de uma senhora muito inteligente e dotada de uma memória invulgar. Posso aqui testemunhar que, sem a sua ajuda, ser-me-ia impossível construir a referida árvore. Prestou-me todas as informações que lhe pedi: sobre os familiares antigos que sofreram da doença, graus de parentesco, descendentes afectados ou não pela PAF.
Posso afiançar que sabia e se lembrava de tudo. Com extrema graça e vivacidade, relatava pormenores, acontecimentos e episódios individuais sobre os familiares mais longínquos.
Tudo anotei e nada desprezei, até objectos de uso pessoal, pensando que, também nesta matéria, se aplica o velho adágio, “guarda o que não presta e terás sempre o que precisas”. Isto a propósito de que todos ou quase todos os elementos recolhidos haveriam de revelar-se úteis na progressão da pesquisa pelo emaranhado dos registos.
2. em seguida, socorri-me do meu conterrâneo e amigo, Pe. Constantino Vilela, pároco da freguesia da Lage, que me facultou a consulta de registos de confrarias, monografias feitas pelo seu antecessor e tio, Pe. Machado Vilela, sobre as principais famílias da freguesia e seus remotos fundadores. Possuía as histórias da casa do “Alferes” (família Ferreira) e da casa do “Ferrador” (família Dias). Refiro estas casas pelo simples facto de as respectivas famílias se acusarem, desde longa data, da proveniência ou origem da doença. É curioso notar que, à medida que ia construindo e alargando a árvore, verifiquei que Joaquina Alves Ferreira, (Casa do Alferes), nascida em 1856, casou em 1882, com José Dias ou José António Dias, da (Casa do “Ferrador”), cujos descendentes herdaram a doença, facto que terá dado origem às acusações mútuas.
3. identificada a localidade e a família portadora da doença, confirmei o ascendente mais longínquo de que havia conhecimento ter sofrido da doença, notícia comprovada pela existência de uma cadeira de rodas que, segundo comunicação pessoal da D. Jaquelina Ferreira, esse familiar usara na sua Quinta de Bouçós – Joaquim Jerónimo Ferreira, nascido em 1836 e bisavô de minha mulher.
4. na posse dos elementos acima, consultei também, e agora de forma sistemática, documentos paroquiais – registos de baptismo, de casamento e de óbito, a partir, salvo erro, de 1914, e ao mesmo tempo, obtive do pároco, outras informações preciosas sobre outras pessoas de que tinha conhecimento, da freguesia de Prado, concelho de Vila Verde, e que viria a constatar pertencerem ao tronco comum dos “Ferreiras”.
5. a seguir fui alargando a árvore, consultando, agora, os registos de nascimento, de casamento e de óbito, entre 1914 e 1890, na Conservatória do Registo de Vila Verde. Para tanto serviram-me a amizade e a compreensão dos responsáveis. (Senhor Francisco Lira).
6. de forma sequencial, consultei os registos anteriores aos existentes no Registo Civil de Vila Verde, depositados no Biblioteca Pública de Braga, até 1620, mais ou menos.
Muito embora o Concílio de Trento (que durou 8 anos, entre 1545 e 1563) determinar a obrigatoriedade de os párocos fazerem os assentos de baptismo/nascimento e de casamento, não existem na Biblioteca assentos da paróquia da Lage anteriores aos atrás citados.
Com todo esse material fiz uma árvore genealógica muito extensa, indo no encalço do desconhecido(a), natural da Póvoa de Varzim – ver Mapa nº. 5, pág. 39.
Antes de concluir, considero de interesse assinalar que, durante as inúmeras conversas que sobre este assunto mantive com a D. Jaquelina, um dia, de rompante, ela me disse: sabe, Morais, já diziam os antigos que foi um ALVES que trouxe a doença do Brasil.
Eu sabia que a “Casa do Alferes” foi erigida com fortuna proveniente do Brasil. O primeiro doente de que há memória nesta família e a única afectada nesta área, de que haja conhecimento, tinha estado no Brasil. A época era de forte emigração para esta nossa colónia sul americana. Fixei esse dado, com certa estupefacção. Mas afinal teria sido um ALVES ou um FERREIRA que trouxe a doença do Brasil?
Chegar a 1836, data do nascimento de J.J. Ferreira não foi difícil.
Os registos apareceram todos: de nascimento, de casamento e de óbito. Quais os mais importantes? Lá vai um pouco da minha experiência que poderá servir a quem esteja interessado em fazer a sua árvore genealógica e evitar a perda de tempo, o desânimo, o impasse ou a desistência.
No fundo é isto a razão principal das minhas palavras.
Todos os registos do baptismo e de nascimento continham a filiação e a naturalidade, elementos imprescindíveis para continuar a construir a árvore. Já na Biblioteca Pública de Braga, fui pesquisando através dos registos de nascimento, mas a data altura vi o meu trabalho bloqueado, pois alguns registos não apresentavam a filiação, ou então apresentavam-na incompleta (caso de filhos de pais incógnitos ou naturais, nascidos fora do casamento).
E durante muito tempo continuei: dobrei 1800 para 1700 e surgiram-me novas dificuldades. Desistir nesta altura já não era possível, dada a embalagem e o desejo de encontrar o amigo/a poveiro/a. Decidi consultar em simultâneo todos os registos, de baptismo, de casamento e de óbito e assim prosseguir a caminhada pelo passado.
Épocas houve em que os diversos registos se alternam na riqueza da informação e se completam. E assim fui, como que viajando em sentido contrário do tempo, em busca desse(a) personagem escondido(a).
Embarquei pela imensa metrópole do passado. Os séculos eram como amplas avenidas, os decénios como ruas estreitas de uma imensa cidade.
Eu seguia em frente, procurando, até que fui encontrar os bisavós, trisavós, tetravós e por aí em diante, mas todos eles estavam registados como naturais de Bouçós, Lage. E fui descendo ao longo da avenida 1700, até que, qual o meu espanto, lá mais ou menos a meio (ano de 1741), misturado na imensa multidão, encontro um “ALVARES” (Joaquim Álvares), pai dos FERREIRAS (Francisco José Ferreira). Senti uma emoção incontida, sensação de ter descoberto nas profundezas do tempo um amigo que sorria ou um tesouro muito bem guardado.
Seria esse “ÁLVARES” o que trouxe a doença do Brasil como se contava, segundo a D. Jaquelina?
Imediatamente verifiquei a sua naturalidade, mas a minha decepção foi imediata ao constatar que ainda não seria este “ALVARES” o pretendido, pois que ele estava dado como sendo natural da Lage, no seu registo de casamento, em 1741, e não da Póvoa.
Mas é aqui que nos vai surgir um caso misterioso e a ser explorado e desvendado no futuro. É que procurei, em vão, o seu registo de nascimento. Apenas encontrei o seu registo de casamento. Continuei a pesquisa e o pai deste “ALVARES” chamava-se Joam “ALVES”. Mas com este ALVES dá-se precisamente o contrário: aparece o seu registo de nascimento em 1675, mas não encontrei na freguesia da Lage o seu registo de casamento. Poder-se-á concluir, por isso, que esse ALVES saiu da sua terra natal e foi casar fora, com uma senhora sua conterrânea, Anna Fernandes, nascida em 1680?
E assim sendo, para onde terá ido este casal?
Nesta encruzilhada volto a questionar-me, afinal, quem traria a doença do Brasil, o Joaquim Álvares ou o seu pai, o Joam ALVES? E por que não Anna Fernandes, mulher do ALVES, e mãe do ÁLVARES, até porque os seus ascendentes terão vindo de MARIZ – BARCELOS?
Ou outro ALVES (António Joaquim Alves) nascido em 1786.
Mas a ser assim, haveria outra história para contar.

(António Rodrigues Morais,
in Jornal da “Associação Portuguesa de Paramiloidose” nº. 16, de Julho – 1989).
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