UNHAIS DA SERRA E SEIA
Em Unhais da Serra, freguesia do concelho da Covilhã, distrito de Castelo Branco, e em S. Romão, freguesia do concelho de Seia, distrito da Guarda, também existem alguns casos de paramiloidose. Localidades situadas muito para o interior, não muito distantes uma da outra, em plena região da Serra da Estrela, foi motivo de estupefacção o aparecimento de doentes com paramiloidose, nesta zona. Passados que foram os tempos de surpresa, hoje busca-se uma explicação para os motivos e as circunstâncias que fizeram chegar a doença até à Serra da Estrela.
Sabemos que a Covilhã e a Guarda estiveram ligadas a quase todas as localidades do País. As suas feiras são muito antigas.
No reinado de D. Pedro II foram estabelecidas na Covilhã e noutras terras, pelo Conde de Ericeira, as primeiras fábricas de lanifícios do País, seguindo as doutrinas colbertistas da época, mais propriamente chamadas de nacionalismo económico.
Por conseguinte não poderemos considerar estas terras isoladas dos principais centros de comércio da nação.
Feito este pequeno intróito, e voltando de novo à questão da existência de alguns focos de paramiloidose na Serra da Estrela, desconhecemos donde eram naturais as pessoas que a levaram para lá, bem como a época e as suas circunstâncias.
Apenas temos conhecimento, como já atrás tivemos ocasião de referir, que feirantes de Santa Maria de Galegos iam comerciar para essas paragens, onde lá permaneciam bastante tempo.
Existem também em Unhais da Serra umas termas anti-reumáticas, de alta qualidade, desde o início do séc. XVIII, que nos podem ajudar a arquitectar a hipótese de terem sido os paramiloidóticos da Figueira da Foz os portadores da doença para essa região, ao recorrerem às termas para curar os seus padecimentos musculares.[1]
António Rodrigues Morais - (in “Jornal da Associação Portuguesa de Paramiloidose” nºs. 7, 8, 9, 10, Setembro de 1983)
Actualizando:
Através do nosso trabalho intitulado “Perseguindo um gene … Que caminhos?”, publicado em Junho de 2004, «não encontrámos nos registos paroquiais de Unhais da Serra, de 1699 a 1899, qualquer indivíduo natural da Póvoa de Varzim e de Vila do Conde, nem do litoral das Beiras, nomeadamente da Figueira da Foz”, pelo que não pudemos confirmar a hipótese de terem sido paramiloidóticos da região da Figueira da Foz a introduzirem a PAF directamente em Unhais da Serra.
Poderiam ser, isso sim, naturais da Figueira da Foz ou da Póvoa de Varzim ou de qualquer outra localidade a levar a enfermidade para a Serra da Estrela, como por exemplo, para Alvoco da Serra ou para Paul, que, por sua vez, os seus descendentes a tivessem fixado em Unhais da Serra. E as razões a darem consistência a esta nossa hipótese, é que «identificámos três casais ancestrais comuns às sete famílias estudadas com Paf, nos princípios do século XVIII”, sendo que um cônjuge é natural de Alvoco da Serra (Seia) e os outros são naturais de Unhais da Serra, paróquia anteriormente associada à de Paul, do mesmo concelho da Covilhã.[2]
Finalmente, e com fortes probabilidades, poderia ter sido, ainda, António Pereira, nascido a 09.04.1726 na freguesia de Nogueira, concelho de Vila Nova de Cerveira, Arcebispado de Braga, que entra na freguesia de Unhais, onde casa em 19.04.1752, e se encontra na cadeia genealógica de seis famílias estudadas.[3]
AS MIGRAÇÕES INTERNAS
E A PROPAGAÇÃO DA PARAMILOIDOSE
Entrevistador: António Rodrigues Morais – Presidente do Conselho Fiscal da APP.
Entrevistado: Manuel Agonia Rodrigues Pereira.
O meu amigo e colega Rodrigues Pereira é empregado do Banco de Portugal, no Porto, e nasceu nas Caxinas (Vila do Conde), numa casa em frente ao mar, perto da Igreja. De família de pescadores bacalhoeiros, ele mesmo foi pescador encartado.
ARM: Rodrigues Pereira, sabe-se que as Caxinas apresentam um dos mais elevados índices de incidência de paramiloidose. Conheces pessoas afectadas pelo «mal dos pezinhos» e as principais características no que concerne à sua transmissão?
RP: Sim, conheci e ainda conheço pessoas que padecem dessa doença, algumas delas até amigas. Hoje em dia as pessoas na minha terra já vão sabendo que a paramiloidose é uma doença hereditária, de carácter dominante, isto as mais evoluídas; mas que se transmite de pais para filhos, creio que foi esta gente a primeira a saber. Diz-se que ela terá aparecido nesta região, Póvoa/Vila do Conde, e terá sido propagada pelos nossos pescadores.
ARM: Sabe-se que um dos factores que tem estado na origem da sua propagação, tem sido a existência ao longo dos séculos, de certas correntes migratórias. Conheces alguma a partir dessa zona que possas referenciar?
RP: Sim, conheço diversos movimentos migratórios permanentes de pescadores e de suas famílias, mulheres e filhos, de todo o País, e bem entendido, quando falo no País, refiro-me ao litoral onde há verdadeiros profissionais de pesca marítima, desde o Minho ao Algarve, e até à Galiza, interrompidos apenas na época do defeso, isto é, nos meses de Fevereiro, Março e Abril de cada ano, e que se dirigem para Matosinhos.
ARM: Mas qual a naturalidade predominante dos pescadores que vêm trabalhar para Matosinhos e porque procuram esta terra?
RP: A maioria dos pescadores é proveniente da Póvoa de Varzim e de Vila do Conde, mais concretamente das Caxinas, por aproximação geográfica. Depois vêm indistintamente de todas as localidades do País, desde, como disse, Algarve, Peniche, Aveiro, etc.. Matosinhos tem um bom porto de abrigo, tinha e tem muitos barcos de pesca, principalmente traineiras e fundamentalmente tinha um aliciante de peso: ganhava-se mais do que nas outras localidades.
Matosinhos recebia famílias inteiras e não possuía estruturas para tanta gente. Vivia-se em «ilhas» e muitas das vezes cada família vivia num quarto.
Estreitavam-se relações de amizade, arranjavam-se casamentos e muitas famílias radicavam-se em Matosinhos, principalmente oriundas das Caxinas e da Póvoa de Varzim.
ARM: E esse movimento das Caxinas e da Póvoa de Varzim é antigo?
RP: Julgo que sim. O meu pai, desde a sua infância, já acompanhava os meus avós nas deslocações a Matosinhos.
ARM: E nos três meses de defeso (Fevereiro, Março e Abril) regressavam às suas terras de origem?
RP: A maior parte regressava às suas terras para voltar em Maio; mas repito, muitas famílias radicavam-se em Matosinhos/Leça.
ARM: Abordemos agora este assunto, por outra vertente – há pouco fizeste questão, e com um certo ênfase, em me dizeres que o teu pai e irmãos foram pescadores bacalhoeiros. Pareceu-me que o pronunciaste com um certo orgulho…
RP: Sim, porque há aqueles que não saíram do País, que se dedicaram à pesca junto à costa portuguesa, em barcos de pequenas dimensões. E ser pescador bacalhoeiro é ser diferente, é aquele que entrou na «Universidade» para doutoramento sobre a pesca. Passar seis meses fora da terra sem qualquer comunicação com a família (julgo que o pescador não está habituado a viver longe da família, da terra onde nasceu), a pescar sozinho em dóris, nos mares gelados da Terra Nova e da Gronelândia, arriscar a vida numa luta constante contra o temporal e o mar, é uma aventura que dá um estatuto especial a quem nela participa. Conhecer novas terras, novas gentes (por ex. esquimós), línguas diferentes, ter novos amigos, deram ao pescador bacalhoeiro o prestígio, o reconhecimento de toda a gente, conquistados com suor, dor e lágrimas.
Lembro-me até de uma certa preferência que as raparigas, na época casadoira, davam aos rapazes bacalhoeiros.
ARM: E de onde vêm também os pescadores que partem para a pesca do bacalhau?
RP: Vêm de todo o litoral, de Norte a Sul, do Minho ao Algarve, mas a maior percentagem pertence a esta zona – Vila do Conde/Caxinas e Póvoa de Varzim.
Havia a matrícula que se realizava no princípio de cada ano para a constituição da campanha e o número de pescadores variava em quantidade de navio para navio e em qualidade com a saída dos mais velhos e/ou dos menos bons e a entrada de novos, os «verdes», normalmente indicados pelos mais velhos.
Antes da saída dos navios havia sempre a inspecção médica, mas, julgo eu, superficial.
A matrícula de um pescador num determinado navio obrigava a ficar «amarrado» a ele para toda a vida, como antigamente um jogador de futebol à sua equipa. Claro que esta situação implicava que, durante muitos anos, quase todos os pescadores, depois de um interregno de mais ou menos 6 meses se encontrassem no mesmo navio e entre eles se aprofundasse uma relação de camaradagem e amizade.
ARM: De onde partem para a pesca do bacalhau? Como é sua vida nessas paragens? Como passam o tempo? E o trabalho … ?
RP: Eles juntam-se normalmente em Lisboa (muitos com as famílias) e de lá partem para os mares da Terra Nova.
Durante a viagem e ao longo de seis meses criam-se amizades sólidas, a solidariedade entre eles está sempre presente, pois, como se pode imaginar, o trabalho é extremamente árduo e traiçoeiro.
A pesca era individual, cada um no seu dóri procurava ter os apetrechos em boas condições e pescar a maior quantidade de peixe.
Portanto a viagem até ao pesqueiro, para além das normais apresentações dos novos elementos, de saber as últimas novidades, os dias, mais ou menos 12 dias, eram aproveitados essencialmente para os necessários arranjos dos apetrechos que a pesca individual do bacalhau a anzol obriga.
Ao longo dos 6 meses que dura a campanha, as horas de ócio são aproveitadas para jogar cartas, cantar o fado e/ou fazer barcos em madeira, fornecida pelo capitão do navio, uma madeira especial, a «flandres», muito boa para este tipo de trabalhos.
Algumas vezes iam «à terra», quando precisavam de se abastecer (alimentação mais isco) e de fazer reparações no navio, ou quando arribavam para fugir ao temporal no mar.
O desembarque em St. John, Terra Nova, era aproveitado para receberem notícias, fazerem compras e para se divertirem.
Acho curioso focar o seguinte aspecto: apesar das verdadeiras aventuras amorosas com raparigas canadianas, e das propostas aliciantes de casamento que receberam, não tenho conhecimento de rapazes bacalhoeiros das Caxinas que tenham ficado no Canadá.
ARM: E ao fim de 6 meses na Terra Nova, regressam às suas terras e separam-se? Ganham na pesca do bacalhau o suficiente para os restantes 6 meses?
RP: O fim da safra (Outubro) implica uma separação de facto pelo regresso dos pescadores à sua terra de origem.
Na pesca do bacalhau ganham relativamente bem, mas não o suficiente, e alguns, sempre que podem, partem com a família inteira em direcção a Matosinhos para trabalhar nas traineiras na pesca da sardinha e do carapau, aí permanecendo até Janeiro, porque em Fevereiro começa o defeso.
[2] IDEM, ibidem, idem, pg. 147.