PÓVOA DE VARZIM – VILA DO CONDE
BARCELOS E ESPOSENDE
Voltando de novo à região norte, é neste aglomerado de concelhos de fronteiras contíguas, que se encontra o maior número de doentes com Paramiloidose.
A constatação desse facto, revela-nos, quanto a nós a existência de um remoto intercâmbio que se movia numa área compreendida entre a Póvoa de Varzim, Esposende e o interior barcelense.
Acho neste momento socorrer-nos do nosso poder imaginativo, para amenizar um pouco a descrição, e supor que o primeiro paramiloidótico nasceu em 1360 e combateu na batalha de Aljubarrota em 1385. Descendente dos primeiros «probadores de Varazim», bateu-se com valentia como é apanágio de todos os poveiros, de tal sorte que mereceu os maiores louvores do Santo Condestável. D. Nuno, por simpatia, transporta-o no seu séquito, para o norte, aquando da sua tomada de posse do Condado de Barcelos, que lhe foi doado por D. João I, por altos servidos prestados. Em chegando a Vila do Conde, D. Nuno terá feito uma visita de cortesia ao Convento de Santa Clara, tê-lo-á apresentado à Madre superiora e restantes freiras, que se tornaram suas protectoras, e em seguida terá regressado coberto de glória para o seio da família, na Póvoa de Varzim. D. Nuno dirigiu-se para Esposende e subiu o rio Cavado rumo a Barcelos.
Evidentemente que esta passagem é produto de imaginação, que muito poderia ser verdadeira, mas já não é fantasia o facto de D. Nuno Álvares Pereira se ter tornado o 7º. Conde donatário de Barcelos. Trata-se de um facto histórico.
Muito poderíamos dizer sobre a extraordinária riqueza histórica de Barcelos. Mas apenas abordaremos um ou outro aspecto da história desta cidade, quando julgarmos que vem auxiliar o entendimento da exposição.
O concelho de Barcelos ainda hoje é o maior do País em número de freguesias. Em 1836 era limitado ao norte pelo rio Lima, a sul pelo rio Ave e a poente pelo mar (Abade de Louro, Memória Histórica).
Póvoa de Varzim resumia-se a parte da povoação, pois o restante do seu território pertencia ao termo (concelho de Barcelos).
A penetração da «Paramiloidose» através destes concelhos, significa, como já se disse, a existência de um tráfego mercantil entre estes quatro concelhos, numa inter- penetração absolutamente natural, dada a proximidade geográfica.
A dar consistência ao que se disse, temos a feira franca de Barcelos concedida por D. João I em 1412 e sabe-se da existência de outra semanal, desde o séc. XVI que «se converteu num dos mais importantes e excepcionais mercados de todo o País … museu típico e originalíssimo de tudo quanto o formigueiro minhoto produz e transacciona – é a Feira Grandes das Cruzes – (Barcelos – resenha histórica –pitoresca – artística, de J. Mancelos e A. Soucasaux).
A seguir à instituição da feira, em 1412, certas obras de vulto são edificadas em Barcelos, cabeça do Condado e do termo, sobressaindo as fortificações, muralhas ou muros, cuja iniciativa terá pertencido a D. João I. No Arquivo Municipal do Porto, Livro A a fls. 920, existe a carta régia de 10 de Agosto de 1413 (e. C. 1451) que contém a isenção dos habitantes de Azurara (Vila do Conde) de servirem nas obras de Barcelos. As obras, por certo, seriam os muros, segundo a opinião do autor de «Barcelos – resenha - histórica – pitoresca – artística». Trazendo esse facto à colação, poderemos também concluir que os moradores de outras terras vizinhas de Azurara teriam a obrigação de trabalhar nas obras públicas de Barcelos. Ainda seguindo o pensamento que vimos a desenvolver, registamos a presença do principal foco de doentes deste concelho na freguesia de Sta. Maria de Galegos (zona do barro). A existência de uma importante indústria de olaria aí localizada, de antigas tradições, as sucessivas gerações de artistas de cariz popular que trabalham no barro, «confeccionando» os célebres bonecos, onde paralelamente se desenvolveu uma classe de feirantes e mercadores, é sintomático. Esses feirantes devem ter chegado a quase todo o País. Indo ao encontro do que se disse, foi-nos comunicado pessoalmente que os feirantes desta freguesia iam mercadejar às feiras da Serra da Estrela, onde lá permaneciam durante bastante tempo. E porque vem a propósito, visto que estamos a falar no movimento de pessoas na sua acção mercantil e não só, sabe-se que os lavradores desta freguesia dirigiam-se à Póvoa de Varzim, com os seus carros de bois, donde de lá transportavam o sargaço para adubo dos seus campos. E já agora, como curiosidade, sabe-se que os primeiros banhistas da Apúlia, concelho de Esposende, eram naturais de Barcelos.
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