OS ALMOCREVES
Todavia há uma actividade muito importante e que ainda não foi abordada, que é o transporte de mercadorias. Essa actividade foi desempenhada desde a Idade Média pelos almocreves. Era uma classe profissional socialmente modesta, contudo essa situação não lhe diminui a importância que teve na ligação das povoações que percorria incessantemente, no transporte de mercadorias de umas localidades para outras utilizando bestas cavalares e muares. Tão necessários foram que havia uma preocupação aguda por parte dos habitantes dos concelhos no sentido de que os mesmos fossem visitados por esses transportadores. Na carta que D. Pedro I deu ao concelho de Cabrela, de 1365, alude ao despovoamento da vila pelo facto de os almocreves a deixarem de percorrer.
«Todas as localidades do País com um mínimo de importância dispunham de um corpo de almocreves indispensável ao seu auto-abastecimento.»
[1] Com a sua acção, os almocreves complementaram de forma eficaz o comércio fluvial e marítimo e contribuíram para o desenvolvimento das comunicações inter-regionais e a integração económica do território.
Alguma documentação dispersa revela-nos determinadas linhas de comunicação de produtos posta em prática por estes incansáveis caminhantes. Não podemos ter, contudo, a pretensão de ser possível estabelecer uma completa tessitura das linhas comerciais por eles trilhadas.
Melhor do que estar a descrever essas linhas de forma pormenorizada, que se tornaria fastidioso, pedimos a atenção para o mapa nº. 2, página 18, que nos mostra «algumas linhas de transporte de peixe e de sal, do litoral para o interior (séc. XIV e XV).
Com vista a uma melhor compreensão das linhas comerciais mais relevantes existentes em Portugal, nos séculos XIV e XV, iremos dividir o País em quatro sectores: zona norte, onde se observa uma relação estreita entre as cidades do Porto, Bragança, Chaves, Chaves, Lamego e Viseu; de Lamego chegam almocreves ao Porto, a Matosinhos e a todos os portos do mar, inclusive à Galiza, em busca de peixe fresco ou seco, permutando-o por vinho, castanha, noz e azeite que transportam. «Semelhante ao caso de Lamego deviam ser as relações comerciais entre Viseu, o Porto e Matosinhos, no que concerne ao transporte do peixe, do litoral para o interior, em troca dos produtos já mencionados».
[2] Centro norte, cujos principais eixos se situam em Coimbra e Aveiro - “enquanto Coimbra se distinguia por se encontrar numa encruzilhada de estradas em várias direcções, Aveiro constituía um centro rico em peixe e em sal.
[3] Centro sul, ligando Lisboa, Santarém e Setúbal com todo o Alto Alentejo, com especial relevância para a cidade de Évora. Zona sul, englobando parte do Baixo Alentejo e Algarve. O facto de se dividir o País em quatro zonas, não significa que as considerássemos estanques, nem tão pouco invalida a existência de uma interpenetração comercial entre as diversas zonas aqui focadas – haja em vista a estrada Lisboa – Santarém – Coimbra e Porto.
[4]
Conhecendo agora melhor a direcção em que se moviam as pessoas e as suas motivações, especialmente de ordem económica e religiosa (feiras e romarias), estamos habilitados a melhor compreender como é que os descendentes do(a) primeiro(a) doente com Paramiloidose, que terá nascido no séc. XIV ou XV, na região da Póvoa de Varzim, se terão movimentado inseridos nas migrações normais dos seus contemporâneos. Seguir-lhes as peugadas, descobrir os factos e as causas que motivaram essas deslocações é o que iremos tentar fazer.
[1]MORENO, Humberto Baquero, A Acção dos Almocreves, Porto, Brasília Editora, 1979, pg. 14. ( in Macedo, Jorge Borges de – Problemas de História da Indústria Portuguesa do século XVIII, Lisboa, 1963, p. 132.)
[2] IDEM, ibidem, pgs.47 e 48.
[3] IDEM, ibidem, pg. 48.
[4] IDEM, ibidem, pg. 56.

Fonte:Moreno, Humberto Baquero - A Acção dos Almocreves – No Desenvolvimento Das Comunicações Inter-Regionais Portuguesas Nos Fins da Idade Média, Porto, Brasília Rditora, 1979, pg..43
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