A PARAMILOIDOSE E A SUA PROPAGAÇÃO
AO LONGO DOS SÉCULOS
A “Paramiloidose” é uma doença genética, hereditária, de carácter autossómico dominante que, segundo a doutrina actual, parece ter surgido há cerca de 500 anos na região da Póvoa de Varzim/Vila do Conde.
Esta doença que se pensa ter acometido pela primeira vez um(a) habitante dessa zona, foi ocasionada por uma mutação num gene localizado no cromossoma 18, erro que originou o fabrico de uma proteína “anormal”, a TTR Met 30, e que se foi transmitindo de pais para filhos através de inúmeras gerações até aos nossos dias.
A ocorrência da mesma mutação em mais do que um indivíduo talvez seja uma hipótese a excluir, pois que nunca foi encontrado nenhum doente cujos pais tivessem apresentado o teste da TTR negativo.
[1]
É habitual admitir-se que o/a primeiro/a paramiloidótico/a, ancestral comum a todos os que hoje existem, terá vivido na área da Póvoa de Varzim/Vila do Conde, talvez nos finais do séc.XIV, princípios do séc.XV e cujos descendentes, ao cabo de alguns séculos, se fixaram em diversos pontos do País e do Mundo.
Como isso poderá ter acontecido ... é o que iremos tentar saber.
[1]SOUSA, Alda de, A Variabilidade Fenotípica Da Polineuropatia Amiloidótica Familiar: Um Estudo de Genética Quantitativa Em Portugal e na Suécia, Porto, tese de doutoramento policopiada, 1995.
TRIÂNGULO VIANA DO CASTELO - BRAGA – PORTO
Por uma questão de exposição, iremos considerar as cidades de Viana do Castelo, Braga e Porto os vértices de um triângulo. A Paramiloidose encontra-se localizada com maior incidência na região norte, dentro deste espaço territorial. Mas é precisamente na região que engloba os concelhos da Póvoa de Varzim, de Vila do Conde, de Esposende, de Barcelos e de Braga, que esta patologia se encontra fortemente implantada, com o mais elevado índice de concentração na Póvoa de Varzim e em Vila do Conde (Caxinas).
Depois de ter transposto, segundo se presume, as fronteiras desta última zona, inicialmente de povoações de pescadores-lavradores e depois de pescadores, infiltrou-se para o interior, como fogo morto, e foi descendo pelo mar, até chegar à Figueira da Foz. Também atingiu a Serra da Estrela em época que desconhecemos. É de presumir que se tenha instalado na Foz do Mondego nos finais do séc. XVII, inícios do séc. XVIII.
Adiante teremos a oportunidade de abordar e aprofundar este tema.
Em todos os tempos houve mobilidade de pessoas e populações de umas localidades ou regiões para outras. Para compreendermos melhor as causas destes fenómenos e os mecanismos que os regularam, convém que recuemos aos primórdios da 1ª. dinastia, ou até aos tempos que antecederam a fundação da nacionalidade.
EMIGRAÇÃO PARA A COSTA NO ALVOR
DA NACIONALIDADE
Somente com a tomada de Lisboa aos mouros, em 1147, é que as povoações do litoral norte começaram a usufruir de segurança. Antes, a beira-mar, do Minho ao Mondego, era frequentemente assolada por piratas sarracenos que pilhavam e destruíam as povoações.
Por esse motivo, a actividade portuária e piscatória era inexistente nessa altura. Além de outros documentos da época, disso nos dá conta o escritor que acompanhou a cruzada que ajudou D. Afonso Henriques a conquistar Lisboa aos mouros, na sua «Epístola sobre a Expugnação de Lisboa »
[1].
Na sua descrição ele não cita nenhum centro urbano ao longo da orla marítima, descrevendo, contudo, povoações distanciadas do litoral, deixando concluir que, quem nomeou Braga associada ao Rio Cávado, o mosteiro de Santo Tirso ao Ave e o Douro a Portugala, com mais facilidade daria conta no seu pequeno bote da existência de qualquer grupo urbano em toda a extensão costeira. Posto isto, poderá afirmar-se que nesse tempo não existia ao longo da costa qualquer núcleo urbano, nem qualquer póvoa na embocadura dos rios.
[2]
A sul do Douro até ao Mondego, o escritor apenas refere a existência de castros e de cidades no interior.
[3]
[1] SAMPAIO, Alberto, Estudos Históricos II Vol “As Póvoas Marítimas”, Lisboa, Editora Gráfica Portuguesa , Lda. 1979, pgs..48/49 – extraído de Scriptores: Crucevignati Anglici Epistola de Expugnatione Oliciponis, T.M.H.
[2] IDEM, ibidem, pg. 49.
[3] IDEM, ibidem, pg.49.
Achando agora o litoral seguro, os habitantes das zonas confinantes com o mar afluem aos portos e enseadas, junto à foz dos rios, e iniciam a actividade piscatória e de navegação, juntamente com a exploração do sal. Com o incremento destas actividades vão-se tornando necessários braços para o trabalho, que emigram do interior de Entre Douro e Minho, não de jacto, mas de forma gradual. Esta emigração pouco caudalosa, mas contínua, vai influir na evolução da velha sociedade portucalense. Vai aumentar a população costeira de forma significativa e diminuir a população agrícola do “hinterland”.
É neste período que se assiste à nascença de póvoas, sobretudo a partir do reinado de D. Sancho I, e cujas notícias nos aparecem através dos Forais e Inquirições: Caminha, foral de D. Dinis de 1284, Viana, foz do Lima – Inquirições de 1258, Argivai -Inquirições de 1220 (desta povoação fazia parte o porto de «Varazim», Póvoa de Varzim – foral de D. Dinis de 1308[1], Vila do Conde é doada em 1209, Zurára e Pindelo aparecem nessa altura como povoações, cujos moradores pescavam no mar e finalmente Matosinhos – Inquirições de 1258, etc..
[1] AMORIM, M. - A Póvoa Antiga – Dois Estudos sobre a Póvoa de Varzim, séc. X – XVI, Póvoa de Varzim, A. CALAFATE, HERD., LDA. 1985, pgs. 36/37 – fig.6.
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