a paramiloidose-Site oficial da Associação Portuguesa de Paramiloidoise
 
 
 
FIGUEIRA DA FOZ – cal para as fortificações de Entre
Douro e Minho
 
Pensa-se que a paramiloidose também terá descido do noroeste português até ao concelho da Figueira da Foz encontrando-se hoje aí fortemente implantada.
                        Este facto indica-nos a possibilidade de ter havido uma ligação comercial entre estas duas regiões, especialmente entre as zonas marítimas.
                        Os forais de Alhadas, Tavarede e Buarcos, hoje freguesias do concelho da Figueira, dados por D. Manuel I, em 1516, apontam-nos nesse sentido. No articulado referente aos «privilegiados», isto é, às pessoas, cidades, vilas ou lugares do reino, isentos do pagamento de impostos na transacção de mercadorias, aparecem mencionadas as seguintes localidades, além de outras: Gaya do Porto, Póvoa de Varzim, Braga, Barcelos, Prado, Vianna de Lima, Caminha, Villa nova de Cerveira, Sabugal, Sortella, Covilhã, Guarda, etc..[1]
                        Assim, não poderão restar grandes dúvidas de que eram originários do litoral norte, provavelmente da Póvoa de Varzim, os portadores da Paramiloidose para a área da Figueira.
 
                        (À luz do que hoje se conhece, tanto poderão ser originários da região norte, como da zona da Serra da Estrela, ou de ambas as áreas, os indivíduos que introduziram a paramiloidose no concelho da Figueira da Foz.[2])
                       
                        Mas antes de revelarmos novos elementos, que pretendemos serem provas de intercâmbio comercial entre estas duas zonas, e usando o mesmo critério anterior, iremos falar um pouco da foz do Mondego, a partir de 1600.
                        No tempo em que Portugal ficou submetido ao jugo dos Filipes de Espanha, 1580, a Figueira não passava de uma pequena e pobre povoação. Sem defesa capaz, estava à mercê dos ataques dos corsários. À mesma sorte estava votada Buarcos e toda a costa portuguesa. Apesar de tudo sabe-se que a Figueira possuía já em 1611 algumas embarcações que se aventuravam a ir à pesca do bacalhau à Terra Nova.[3]
                        Mas é, sobretudo, com a recuperação da independência, em 1640, que o porto da Figueira começa a desenvolver-se e a ganhar importância, com a implantação da indústria da construção naval.
                        Ao desenvolvimento da marinha ligou-se «o aumento sempre crescente do comércio do porto».
                        Inúmeros dados ilustram o que afirmamos. Em 1646 o movimento conhecido foi de 41 embarcações. Saíram 1299 moios de cal, 102 de trigo, 64 de milho, 85 mós de moinho, 16 dúzias de taboado e 200 de louça – (Livro da receita da Alfândega de 1646).
                        Em 1648 o número de navios saídos elevou-se a 47. A cal subiu a 1530 moios.[4] E assim as entradas e saídas de embarcações do porto foram aumentando em número e importância com o rodar dos tempos, merecendo especial destaque a exportação da cal, produto local que, para o caso, mais interessa seguir-lhe o rasto.
                        “Do antigo fabrico da cal apparecem vestígios em documentos do século XVIII: são ruínas de fornos em diversos pontos, incluindo o sítio do Bairro Novo, e até um logarejo denominado Casal dos Fornos”. Este lugarejo ficava no limite da Figueira ou no couto de Tavarede.[5]. «Documentos do princípio desse século mencionavam ainda os fornos da Salmanha e o do padre Melchior Monteiro»[6]. “Convém notar que certos documentos falam que o Casal dos Fornos era do Bento Fernandes, e de que a sua indústria era a do fabrico da cal, que expedia em bastante quantidade para os portos do norte”.[7]
                        Para que portos do norte sairia a cal? A que se destinaria? É o que iremos ver de seguida.
                        Conforme consta do Livro de registo da Alfândega de 1690 a 1701, fl. 15º. e 17 vº., e livros de receita desde 1648, verifica-se que «foi para os portos do norte do reino que principalmente saiu a cal, sendo em grande parte aplicada às fortificações de Entre Douro e Minho».[8]
                        Ainda do mesmo autor, António dos Santos Rocha, poderemos ler: «O comércio da cal, que no século anterior prometia largo desenvolvimento e que devia produzir benefícios consideráveis, por ser artigo de fabricação local, parece não ter progredido. No ano de 1701 o livro da receita e despeza da Alfândega regista a saída de 648 moios (o meio de cal parece que media 78 alqueires), e o livro das finanças dos portos seccos 601 moios. Em 1702 esta última escrituração menciona 505 moios, e o livro das finanças do Consulado 305 moios. Em 1703, segundo este livro, baixou para 217 moios, em 1704 para 121, e no triénio de 1706-1708 a média, segundo o mesmo livro, foi de 283 moios».[9]
                        Do citado autor colhemos ainda a seguinte justificação, para a estagnação do comércio da cal: «A nosso ver, a facto seria devido apenas à diminuição do consumo da cal de Entre Douro e Minho, porque para estas obras, principalmente, é que a Figueira fornecia esse produto. Também as obras dos conventos do norte do país consumiam algumas porções: podemos citar o mosteiro de Vilar de Frades, o dos frades do Carmo de Esposende e o das carmelitas descalços de Vianna …».[10]
                        Estas notícias são extremamente esclarecedoras. Sabe-se que as obras das fortificações da Póvoa de Varzim foram iniciadas no reinado de D. Pedro II, por isso, nessa época. Igualmente nesse reinado foram construídas as fortificações de Esposende. O convento de Vilar de Frades fica localizado em Barcelos.
 
                        Mas para que possamos tirar as nossas conclusões, será de toda a conveniência, neste momento, darmos um salto até à história da Póvoa de Varzim e ver o que lá se passava por volta do ano de 1701.
                        É assim que Viriato Barbosa se refere em «A Póvoa de Varzim (Ensaio da História desta Vila) relativamente à construção da fortaleza desta cidade: «Os trabalhos de construção da Fortaleza começaram no ano de 1701, no tempo de D. Pedro II, a requerimento do capitão de ordenanças desta vila, João d’Almeida Rêgo, e a instâncias do Governador das armas da cidade do Porto, o mestre de Campo Dom Pedro de Vasconcelos e Sousa, filho dos Condes de Castelo Melhor.[11] … Durante três anos seguidos tiveram as obras o seu natural desenvolvimento sendo nesse espaço de tempo construída a sapata de toda a muralha, elevando-se esta até à altura de 13 ou 17 palmos em dois baluartes. Noutros pontos a obra marchava vagarosamente.
                        As obras estiveram paralisadas de 1704 a 1738, isto é, durante 35 anos. D. João V interessou-se pela conclusão rápida da fortaleza, tendo esta sido concluída dois anos mais tarde, em 1740.»[12]
                        Relacionando estes factos locais com a história contemporânea do País, situámo-los no reinado de D. Pedro II, nas vésperas de nos vermos envolvidos na guerra da Sucessão ao trono de Espanha.
                        D. Pedro II manda construir fortalezas por todo o território, talvez por dois motivos: primeiro, para defesa dos ataques dos corsários que infestavam o litoral; segundo, porque antevendo o estalar da guerra da Sucessão, queria estar preparado para ela.
Confrontando as datas de todos estes acontecimentos verificamos haver um sincronismo perfeito entre o movimento de cal do porto da Figueira da Foz e o início e a paralisação das obras da fortaleza da Póvoa de Varzim, enquadrados na história do País, dessa época.
 
                        Senão vejamos:
1701      - Rebenta a guerra da Sucessão e o teatro das operações dessa longa luta
 de 13 anos foram o norte de França e o sul de Itália.
           
-Início da construção da fortaleza da Póvoa de Varzim.
 
-Sai cal do Porto da Figueira da Foz para os portos do norte, para ser aplicada, em grande parte, nas fortificações de Entre Douro e Minho.
 
1704 – Desembarque em Lisboa do exército anglo-holandês e declaração de guerra à Espanha.
 
                        -Paralisam as obras da fortaleza da Póvoa.
 
            -A saída de cal da Figueira cai para 121 moios.
 
Perante tanta coincidência, somos realmente forçados a admitir que foi o porto da Póvoa de Varzim e as obras da sua fortaleza, um desses «portos do norte do reino» e uma dessas «fortificações de Entre Douro e Minho», a que se refere o autor dos «Materiais para a História da Figueira», para onde saiu e foi aplicada a cal.
Igualmente somos induzidos a admitir que, através desse intercâmbio nos princípios do século XVIII, terão havido maiores possibilidades do que em qualquer outra ocasião, de naturais da Póvoa de Varzim e da Figueira da Foz se cruzarem pela via do casamento ou fora dele.
Se não encontrámos nos registos paroquiais de casamento da freguesia de Buarcos (Figueira da Foz), entre 1622 e 1795, (anteriormente a 1622 não existem registos desta paróquia), qualquer noivo/a natural na Póvoa de Varzim a entrar na dita freguesia para casar ou ter filhos,[13] já nos registos da Póvoa de Varzim encontrámos um assento em que nos diz que “em 15.04.1573, Gaspar Afonso, natural de Buarcos, (Figueira da Foz), casa na Póvoa de Varzim, com Maria Gomes, filha de Manuel Brás e Maria Gomes. São testemunhas Pedro Anes Redondo, João Álvares, Gonçalo Gonçalves e Martim Alvares.[14]
Aceitando que a mutação genética tenha ocorrido há mais de 500 anos na região da Póvoa de Varzim/Vila do Conde, é de crer que, a partir dos inícios do século XVI, o gene mutante da Paf tenha feito percursos em circuito, da Póvoa de Varzim para a Figueira da Foz e para outras comunidades, e destas para a Póvoa, acompanhando os respectivos fluxos comerciais.
Para se observar todos esses percursos, tornar-se-ia necessário consultar também os registos paroquiais de outras freguesias do concelho da Figueira da Foz, como da sua sede, Tavarede, etc., para se visionar quem lá entra através do casamento ou lá tem filhos, e esse trabalho está por fazer.


[1] ROCHA, António dos Santos, Materiaes para a H istoria da Figueira nos séculos XVII e XVIII, Figueira, Casa Minerva, 1893 – Collecção de Elementos para a Historia do Concelho da Figueira – Primeira Parte, Figueira da Foz, Imprensa Lusitana, 1898, pgs.9/46. (Foraes).
[2] MORAIS, António Rodrigues, Perseguindo um gene … Que caminhos? (1699 – 1899), Guimarães, NEPS - Núcleo de Estudos de População e Sociedade, Universidade do Minho, 2004, pgs.29-37, 110, 147.
[3] ROCHA, António dos Santos, Materiais para a História da Figueira , ROCHA, António dos Santos, Materiaes para a H istoria da Figueira nos séculos XVII e XVIII, Figueira, Casa Minerva, 1893, pg. 63.
[4] IDEM, ibidem, idem, pg. 67.
[5] IDEM, ibidem, idem, pg. 75.
[6] IDEM, ibidem, idem, pgs. 75/76.
[7] IDEM, ibidem, idem, pg.149.
[8] IDEM, ibidem,idem, idem, pg. 76.
[9] IDEM, ibidem, idem, pg. 208.,
[10] IDEM, ibidem, idem, pgs. 208/209.
[11] BARBOSA, Viriato, A Póvoa de Varzim (Ensaio da História desta Vila), Porto, Livraria Fernando Machado, 1941, pg.61.
[12] IDEM, ibidem, idem, pg.62.
[13] MORAIS, António Rodrigues, ibidem, idem, pg. 34.
[14] IDEM, ibidem,, idem, pg. 32.
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